Caminhos para o estudo do violão
- Anderson Zabrocki
- 1 de dez. de 2017
- 2 min de leitura

…O mestre do violão empunhou o instrumento, apertou as cordas, tirou alguns acordes, para experimentar… “o violão é o instrumento da paixão. Precisa de peito para falar…É preciso encostá-lo, mas encostá-lo com maciez e amor, como se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos”… Diante do violão, Ricardo ficava loquaz, cheio de sentenças, todo ele fremido de paixão pelo instrumento desprezado.
Trecho do livro: Triste fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto).
O trecho acima descreve de maneira poética a primeira aula de violão de Policarpo Quaresma com seu professor, Ricardo Coração dos Outros. O que impulsionou Policarpo ao aprendizado do violão foi o seu amor pela cultura nacional e a busca pela expressão poético musical que caracteriza a alma brasileira, concluiu que a modinha acompanhada do violão seria a tal expressão.
Apesar de se tratar de um exemplo da ficção, acredito ser um bom e belo exemplo para ilustrar os pensamentos e anseios de alguém que se inclina pelo aprendizado de um instrumento musical. O protagonista, Policarpo Quaresma, era aficionado pelo estudo da história, costumes, tradições, arte e música brasileira. O envolvimento com essas atividades eram as principais fontes de prazer e alegria para o pacato Policarpo, e no momento em que se decidiu por estudar música é notável que a soma de seus interesses contaram e muito para a decisão pelo violão.
Agora, por quais caminhos nossos alunos, ou nós mesmos chegamos ao violão? São tantas outras histórias possíveis, que envolvem afetividades, gostos, preferências e impulsos. São diversos caminhos possíveis para se chegar ao violão, e que, como professores, devemos buscar acompanhar e auxiliar na manutenção e desenvolvimento dos interesses de cada aluno. Creio que dessa forma respeitamos e aproveitamos os potenciais apresentados por cada um, desde os primeiros exercícios ao violão.
Sejamos, em alguns momentos, como Ricardo Coração dos Outros, que nas aulas para Policarpo mesclava, poesia, histórias, exercícios de escalas/posições e escuta musical, nos momentos em que tocava músicas famosas e outras de sua autoria. Uma aula completa [1], que ia de encontro aos anseios de Policarpo, que buscava as lições de violão sem pretensão de ser concertista, apenas desejava trazer para sua vida um pouco mais daquilo que considerava tão belo. Portanto, que o estudo do violão seja, em primeiro lugar, um prazer, e que as propostas do curso sejam significativas para o aluno em cada momento de seu aprendizado e desenvolvimento.
Anderson Zabrocki, violonista, professor e produtor musical.
*Imagem que ilustra o início do texto: João Pernambuco, de pé à esquerda, Barrios Mangoré, Sentado e Quincas Laranjeiras, à direita, na loja O Cavaquinho de Ouro, Rio de Janeiro, 1929. Mestres do violão no Brasil, no início do século XX.
[1]. de fato uma aula de música completa, também se levarmos em conta o modelo T.E.C.L.A, criado pelo educador musical inglês, Keith Swanwick. O modelo T.E.C.L.A sugere que uma aula completa deve apresentar 5 elementos: T de técnica, E de execução, C de composição, L de literatura e A de apreciação. SWANWICK, K. Ensinando Musica Musicalmente. Ed. Moderna, São Paulo, 2006. p.70-72




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